domingo, 5 de outubro de 2008

O GRITO DO SILÊNCIO

Eu não consigo acreditar em uma literatura egoísta, por mais que eu escreva para satisfazer um necessidade minha de gritar, a literatura deixa brechas para conhecer outras almas e sentimentos.
O que eu quero dizer que aqui neste blog eu pretendo dar espaço mais que merecido para autores diversos de nossa literatura. Até os desconhecidos, por que não? A literatura deve ser socializada. Então, diante dessa minha proposta, como é que eu não posso deixar outros loucos que gostam de brincar com palavras darem a sua contribuição.
Muitas vezes o silêncio me completa e eu me sinto muito mais confortável. Geralmente eu encontro muitas respostas no silêncio, mas não é um silêncio vazio e sim recheado de prosas e poesias de pessoas que sentiram vontade de gritar como eu. Mas que gritavam com uma competência fora do comum. Uma dessa pessoas, que eu descobrir há pouco tempo foi Hilda Hislt, impossível não ouvir nem que seja seus sussurros e delírios, que dirá seus gritos.
Hilda é daquelas mulheres que não vieram apenas para ser mais uma, ela veio para viver de uma forma tão intensa e brincar de maneira alucinante com conhecimentos que iam desde a literatura verdadeiramente livre até postulados matemáticos. Incrível como ela gostava de abstrações. Eu vi na obra da Hilda Hilst um relfexo sincero de uma inquietação minha. Portanto, sem egoísmo, porque esse espaço não pode ser só meu, eu tenho a obrigação de colorir esse blog com um pouco da mulher que me ajudou a pensar em silêncio aquilo que eu não tive coragem de gritar.

POR FAVOR, DONA HILDA, SINTA-SE À VONTADE.


Tô Só
Crônica de Hilda Hilst para o "Correio Popular" de Campinas-SP


Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*
Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

* Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959.

(Segunda-feira, 16 de agosto de 1993)

COM A LICENÇA DA PALAVRA: TRÊS GRANDES OBRAS.

Gostaria de falar de três livros fantásticos que foram lidos por mim nestes últimos meses, Budapeste, de Chico Buarque de Holanda, O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde e por fim O caderno rosa de Lory Lamby, da querida Hilda Hilst.
Os três têm algo em comum, a perfeita utilização da palavra. Inclusive o romance do Chico tem como protagonista a palavra, a linguagem. Tudo isso me faz pensar que esses escritores promovem um verdadeiro balé de significados e significantes.
Em Budapeste, Chico não apenas narra a história de José da Costa, um ghost writter como também nos faz refletir sobre a importância da língua em nossas vidas, essa ponte em que o personagem passa do Brasil a Budapeste carrega em si uma série de diferenças étnicas, culturais e lingüísticas. Os personagens parecem ter sido feitos para futucar a nossa capacidade de transformação. Todos eles passaram por uma metamorfose, como num sonho ruim ou num delírio. A obra de Chico Buarque é alucinante e louca, e alguns momentos chegam a ser pesadelo.
E por falar em loucura, Oscar Wilde atingiu o ápice da acidez em uma obra recheada de palavras inquietantes, são reflexões profundas sobre a beleza, que eu li justamente em uma época eleitoral. Mas o que tem a ver Dorian Gray com os nossos mais corruptos políticos? Uma pesada máscara que carregam no rosto, que aliás, diga-se de passagem, essa máscara chega a ser necessária para muitas “estrelas” da mídia jabá se manter no sucesso e para nossos políticos se manterem no poder. Poder, dinheiro, beleza e perfeição, todas essas entidades foram questionadas com sutileza e perspicácia. Salve Wilde, que teve a coragem de usar a palavra para protestar literariamente contra uma sociedade hipócrita e mascarada em que vivia. O triste é perceber que a história contada por Wilde parece ainda tão real e que aquela sociedade criticada por ele continua atual.
Por fim, como não falar do Caderno rosa de Lory Lamby, inicialmente a história me causou uma repugnância pela força com que as palavras eram ditas, pensei até ser desnecessário tudo aquilo, mas Hilda Hislt sabe o que faz, e por mais que se critique ela cumpriu com maestria o desafio de uma obra pornográfica. Lory Lamby é uma garota de oito anos que vive de forma ingênua e cruel as experiências ou fantasias eróticas. Desnecessário ou não, o texto de Hilda nos lança o desafio de encarar o peso das palavras e ir até o fim pra descobrir que muitas vezes uma história perversa guarda a ingenuidade e a doçura da infância.

domingo, 17 de agosto de 2008



DEMISSÃO VOLUNTÁRIA

não venham me dizer que eu Sonho demais
eu apenas vivo nas Nuvens

chega de Histórias mal contadas.
Queimei meus livros da escola
Não acredito mesmo no brasil independente!
nem nas abomináveis abstrações matemáticas.

a Poesia é minha ciência
nela minhas proposições são sempre Verdadeiras
quem quiser que me chame de Sonhador
sou apenas Poeta.


D.L.C

QUE LIBERDADE É ESSA?

Às vezes eu me pergunto sobre a liberdade. Não encontro respostas para me aliviar. Quanto mais nos libertamos mais nos prendemos às regras que irão reger essa liberdade contida, reprimida. Ser livre e aprender a voar é como um sonho que sempre teremos de viver com nossa própria consciência tranqüila, sem conflitos. Mas os conflitos fazem parte da vida, é com eles que aprendemos e com eles que movimentamos nossa realidade. Essa dinâmica do sofrimento é tão paradoxal... Será que a liberdade não é sofrimento? Sofremos por sermos livres ou por não sabermos até que ponto somos livres? O sofrimento traz em si o germe da aprendizagem. Como diziam os mais antigos, “aprender com o mundo.”.
Os homens primitivos em sua sociedade estavam tão preocupados com sua sobrevivência que para eles a liberdade estava na defesa. Com o Estado, a liberdade passou a ser o ataque. E hoje o ser livre é aquele que tem seu espaço definido e fortalecido pelo poder político e econômico. Há quem diga que a democracia é liberdade. Usando um raciocínio lógico e considerando que democracia é conflito e democracia é liberdade, logo liberdade é conflito.
O meio ambiente, o lucro, as pestes, as guerras, o medo pós-moderno, o estresse, as síndromes, as armas, todos representam, em certo grau, prisões, embora estejam intrinsecamente ligados à busca pelo ser livre. Presos em apartamentos, o homem reflete sobre suas contas e seus contos, fica entre a vida e o mundo, nem sempre elementos concordantes. Ao ligar a TV o homem vê o mundo que o espera enquanto sonha com um mundo que considera ideal.
A liberdade fica nesse limite entre o real e o ideal, a realidade libertária é utópica. Além disso, o ser humano para ser livre, mata, amedronta, destrói, desvaloriza uns e supervaloriza outros. As classes sociais enfrentam seus abismos e a liberdade econômica prende seus abastados em grandes muralhas urbanas. Grades, muros, casarões, portões, câmeras, vigilantes, cercas elétricas. O ponto de encontro entre os que ficaram de fora dessa liberdade socioeconômica está nos assaltos e seqüestros, nos interesses caritativos dos senhores da sociedade, guardiões do poder, da política, da economia, da moral, da justiça e de Deus.
As armas do poder são cada vez mais fortes e eficazes, entram não apenas nas casas, mas penetram nas mentes, nas idéias, nas atitudes e comportamentos humanos. Bombas? Para quê? Podemos conquistar mentes, implantar idéias de resignação, podemos sedá-los com a idéia de Deus. E assim perderão suas forças, seus argumentos, seus gritos, suas bocas serão tapadas e seus olhos não verão mais o real da vida, verão marcas, rótulos, títulos que não o satisfazem, até chegarem ao ponto ideal de se considerarem fracos, sem voz, sem poder, quando na verdade são maioria.
Eis a utópica liberdade democrática: todos podem, mas nem todos devem. Ser livre então é desfrutar dos prazeres imediatos, da alegria inebriante, da felicidade alienante e da imagem alucinógena do que se tem ao seu dispor, propagandas, simulacros, a felicidade das propagandas de cerveja e a bonita imagem do povo alegre e festeiro.
Que liberdade louca é essa? A liberdade dos cigarros e dos outdoors?
O homem livre de Nietzsche não admite o que é posto, ele revira a história e combate os conceitos e preconceitos definidos, assim seria uma liberdade revoltada que não tem fim, que não encontra um ponto final. Mas esse ponto existe e milhares de pessoas vêm o encontrando em sua luta para ser livre.
Para mim, a liberdade é uma interrogação, não uma exclamação, no máximo uma reticência alongada pelo medo de seguir. Isso! O medo de seguir. A liberdade é limitada pelo medo, justamente o medo da liberdade alheia.
Entre medos e liberdades, seguimos tremendo rumo a uma confortável e utópica idéia de humanidade livre.

REVOLUÇÃO EM MIM


A coragem que me tira da ilusão
É mesma que me põe na guerra
Armas em minha mão
Sem destino

Ponho minha alma para lutar
Meu corpo resiste ao tempo
Na mente, lembranças doloridas
Da paz silenciosa
Que eu não mais quis

Cadê a minha face?
Já não a encontro para oferecer
Já não me perco sem temer
O medo de não lutar me sangra

Quero a luz da lua para me guiar
Enquanto estrelas orientam meus passos

Naturalmente me faço humano
Em meio a uma extinção
Construo meu espaço
Nele coloco minhas marcas
De lágrimas
De sangue
De suor
E desejo

Na minha revolução
Evoluo meus sentimentos
Ponho meu coração em oferecimento
Enquanto resgato minha história
E a transformo em canção.